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Integração dos povos, exclusão dos pobres

Integração dos povos, exclusão dos pobres
Travessia - A ponte substituiu a antiga travessia por embarcações, entre os portos Meira e Mendes, no Brasil e na Argentina - Foto: Francisco Insfran Ruivo

Paulo Bogler
Fotos: Marcos Labanca

Em 29 de novembro de 1985, a inauguração da Ponte Tancredo Neves consolidou a união física entre o Brasil e a Argentina, concretizando um sonho embalado desde o século 19. Deitando sobre o Rio Iguaçu uma via para a integração, o desenvolvimento e a mobilidade, a obra foi construída a 15 quilômetros abaixo das Cataratas do Iguaçu, conectando o bairro Porto Meira, em Foz do Iguaçu, a Puerto Iguazú.

A obra substituiu a antiga travessia por embarcações, entre os portos Meira e Mendes, no Brasil e na Argentina, localizados a 1,5 mil metros do local onde a Ponte Tancredo Neves foi edificada. À época, nas barrancas do Iguaçu, vigorava um centro turístico internacional, um vaivém humano sobre o rio que irrigava a economia da região e garantia a sobrevivência financeira de centenas de famílias da vila que hoje forma o Grande Porto Meira.
 

Severiana e Lúcio Villalba:aqui estava a minha vida, mas tudo acabou quando a ponte ficou pronta

Os irmãos Lúcio e Severiana Villalba, tomados pela emoção, marejam os olhos e não escondem as cicatrizes ao ser convidados a revisitar o velho porto fluvial. Lúcio André Villalba, de 56 anos, era adolescente quando começou a trabalhar como carregador de malas na travessia da fronteira pelo rio. Sua irmã Severiana Villalba, de 53 anos, vendia frutas, bebidas e outros alimentos. Foi uma época de fartura, dinheiro e diversão, contam.


“A experiência que tenho, tudo o que sou e que vivi vem do tempo em que trabalhei no Porto Meira. Aqui estava a minha vida, mas tudo acabou quando a ponte ficou pronta”, disse Lúcio Pitoco ao pisar novamente na área do porto, rara ocasião desde o seu fechamento em 1985. “O mundo passava aqui, bem perto de nossa casa. Além de garantir a renda, o rio e o porto eram os lugares de encontro e diversão. Aqui era o nosso lar”, rememorou.

A copeira Severiana Villalba lembra os frequentes escapes de ambulantes para fugir de fiscais do porto. Pegos, eram levados para o Fórum de Justiça, no centro. Enfrentar o juiz era menos difícil que tomar a lotação do bairro, que passava às 8 da manhã e 6 da tarde. “A ponte acabou com o Porto Meira, as pessoas ficaram sem trabalho e muitas tiveram de mudar. Eu e muitas outras chegamos a torcer para a obra cair”, desabafou.

O acidente de ônibus nas curvas de acesso à barranca, a queda do bondinho e o casal de militantes de esquerda que engoliu cápsulas de cianureto para não ser presos na margem argentina estão entre as recordações de Severiana, que evitou utilizar a Ponte Tancredo Neves o quanto pôde. “Fiquei tão contrariada que atravessei a ponte pela primeira vez no ano passado, quando fui à Argentina em busca de documentos de minha família”, revelou.

A ponte mudou de lugar


Antonio Siqueira: a Ponte Tancredo Neves ficaria perto do Porto Mendes

Centenas de famílias viviam diretamente do trabalho no Porto Meira. Eram barqueiros, carregadores, vendedores, guias de turismo... Por 20 anos, Antônio Siqueira foi piloto de barco com carteira de trabalho assinada. Ele conta que outras 800 pessoas garantiam renda nas atividades do porto e três mil passageiros cruzavam a fronteira diariamente, chegando a dez mil em feriados. As filas de carros alongavam-se pelas ruas das cercanias.

O barqueiro revela que a Ponte Tancredo Neves ficaria perto do Porto Mendes. “Todos nós esperávamos a obra onde funcionava o porto, para trazer crescimento para o bairro e manter o trabalho dos moradores”, relembrou Siqueira. “De repente, levaram a ponte para o outro lado. Foi uma surpresa para todos nós, e o Porto Meira caiu em crise”, disse. Para o navegador, as propriedades de empresários explicam o motivo da mudança da construção.

Tempos de vacas gordas


Com o dinheiro que ganhou trabalhando no Porto Meira, o empresário Moacir Marcolino de Moura, de 76 anos, construiu um hotel de três estrelas no centro de Foz do Iguaçu. Depois de viajar em pau de arara da pernambucana Arcoverde para o Paraná, com o patrimônio de uma cama de madeira, um galo, uma galinha e uma gata chamada “Faísca”, o hoteleiro estabeleceu-se no Porto Meira, primeiro como guia e depois como proprietário de agência de turismo.

“Quando pisei no Porto Meira, entendi que ali era um lugar de fartura; ganhei no dia um terço do meu salário mensal como motorista. E assim foi por 15 anos, de 70 a 85. Quando veio a construção da ponte foi um baque, uma crise social. Até guias de turismo começaram a passar necessidades”, afirmou Moura. Conforme o empresário, foram provocadas reuniões para minimizar os impactos da mudança entre a população, terminadas sem decisões efetivas.

Agradecimento a Francisco Insfran Ruivo.

 

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