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A matrícula (ou rematrícula) responsável

A matrícula (ou rematrícula) responsável

* José Elias Castro Gomes

Há certas práticas de nós, brasileiros, que, de tão recorrentes, acabam sendo consideradas “culturais”. Isso vai desde atitudes positivas, como a criatividade para resolver problemas do dia a dia, a procedimentos imediatistas e que confundem ser simples com ser simplista, como trocar de técnico quando o time vai mal no campeonato. Esse reflexo instantâneo de sempre atribuir a culpa ao responsável pela gestão contamina quase todas as nossas percepções cotidianas, tanto que o brasileiro tem dificuldade em se perceber como parte da crise, preferindo atribuir sua culpa e responsabilidade a quem está no comando (e de forma absoluta e intransferível).

Há um paralelo no universo estudantil: quando há algum tipo de atrito na relação pais-aluno-escola, a alternativa mais imediata e usual é a transferência. Conhecemos bem essa regra, pois em todo período de matrículas recebemos diversos pais fazendo seu desabafo (quase sempre justo e sincero) e justificando o interesse em trazer seu filho para nossa escola. Claro, ficamos lisonjeados e recebemos os novos alunos de braços abertos. Mas seria realmente a transferência o caminho mais correto e sensato?

Longe de nossa escola querer desdenhar o interesse dos pais de alunos de outras instituições de ensino, mas temos uma postura um tanto cuidadosa nesse tipo de situação. E há dois motivos pertinentes para nossa prudência. O primeiro é o fato de que, geralmente, a mudança de ambiente estudantil resulta em certa inquietação e até frustração para o aluno, pois terá de refazer sua rede de amizades e, via de regra, vê com desconfiança o novo espaço no qual será inserido. O segundo é nossa crença de que é preciso debater a situação com a escola do aluno antes de transferi-lo.

A participação dos pais no universo estudantil há muito deixou de se resumir no mero acompanhamento das notas no boletim a cada fim de bimestre. Apoiar nas lições de casa, OK, já é um bom avanço. Mas a participação real ocorre quando os pais se interessam de forma verdadeira, constante e ativa do ambiente escolar. Isso não significa adentrar na sala de aula diariamente cobrando dos mestres o que estão aplicando na grade curricular, mas sim estar por dentro da metodologia de ensino, frequentar as reunião de pais e mestres, opinar sobre melhorias e, acima de tudo, ficar ciente do real grau de êxito que a escola está tendo na evolução de seu filho. Caso haja alguma dúvida quanto a esse último quesito, o ideal é agendar uma conversa presencial com a direção da escola, professores ou algum responsável da equipe pedagógica para explicar a percepção de uma crise e debater alternativas que visem reverter a situação.

Logicamente que há diversos outros possíveis dissabores na relação com a escola: alguma atitude praticada por um mestre que seja considerada indevida, sinais de desconforto e insatisfação do aluno, disciplinas com conteúdos de validade discutível, etc. Mas a atitude a ser tomada em todos os casos é sempre a mesma: ir até a escola e colocar a questão em pauta. Sempre. E até se exaurir completamente as tentativas de diálogo. Quando efetivamente se constatar que não será dentro da escola que virá a solução, então chega realmente o momento de formalizar a solicitação de transferência do aluno.

Caso não se adote a postura da discussão, não se estará transferindo um aluno, mas sim uma questão que não encontrou resposta. Então, que os dois últimos meses do ano sirvam para essa reflexão. Migrar de uma escola para outra não deve ser um ato de impulso, mas sim de responsabilidade e de carinho com o principal interessado: o próprio aluno.

José Elias Castro Gomes - Mantenedor do COC Foz do Iguaçu.