
Para o cientista suíço Moisés Bertoni, o tempo, talvez, parecesse acelerado. Já no final do século 19, vivendo em meio à selva na região de Presidente Franco, no Paraguai, ele registrou em uma carta a necessidade de construir uma rodoferrovia ligando Brasil e Paraguai.
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Autor de 524 obras, entre livros, folhetos e textos científicos, o sábio já vislumbrava uma transposição para as turbulentas águas do Rio Paraná. Ele morreu em 1929, não a tempo de ver a ligação, que acabou materializando-se em uma ponte.
O registro deixado por Bertoni faz parte da pesquisa da historiadora Milena Mascarenhas, autora do livro História da Ponte Internacional da Amizade: Representações Espaço Binacional.

Resultado de uma tese de doutorado, a obra traz um panorama sobre a história da Ponte da Amizade e revela que, já por volta de 1956, quando tiveram início os acordos para construir a ponte, pensava-se em construir uma segunda ponte justamente na região de Presidente Franco, onde atualmente está edificada a Ponte da Integração.
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A obra só não foi feita em Franco naquela época porque estudos técnicos apontaram a inviabilidade técnica para a construção da via, relata Milena. “Foi acordado então que se houvesse uma segunda ponte, a edificação seria em Presidente Franco”, completa.

“Se o rio é uma fronteira natural, a ponte é a transgressão desse limite. ” Michel de Certeau, historiador francês (1925-1986)
Primeira grande obra fomentou importantes bairros
Primeira grande obra da fronteira Brasil–Paraguai que antecedeu a Itaipu Binacional, a Ponte da Amizade atraiu uma legião de cinco mil trabalhadores para Foz do Iguaçu, uma longínqua cidade no interior do Paraná que ainda engatinhava e tinha parcos 20 mil habitantes.
Foi edificada antes mesmo da BR-277, que ligou Foz do Iguaçu a Curitiba, trazendo mobilidade e dinamismo à região, diz a historiadora.

A ponte, segundo Milena, impulsionou o surgimento da Vila Portes, Jardim Jupira e do bairro Obrero, em Ciudad del Este, que hoje fica na região do Estádio 3 de Febrero, a cerca de três quilômetros da Ponte da Amizade.

Primeiro conglomerado residencial urbano de Ciudad del Este, o bairro Obrero começou a despontar em 1961, quando trabalhadores que viviam em cabanas improvisadas nas proximidades do Rio Paraná precisaram ser realocados para a primeira inauguração da ponte.
Do lado de cá, a movimentação de trabalhadores contribuiu para a criação de pequenas escolas e moradias, que se tornaram embriões para o Jardim Jupira e Vila Portes, cuja pujança comercial chegou com a exportação de mercadorias para o Paraguai, só possível porque uma ponte, a da Amizade, já estava de pé.