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O maior protege o menor. Ou o devora.

O maior protege o menor. Ou o devora.
Proteção - Foto: Divulgação

Fazer passar o tempo em um vôo tão demorado como o que eu fiz de volta a Foz não é tarefa simples...

Afinal só há nuvens para se apreciar pela escotilha, não demora a esgotar nosso interesse pelo conteúdo da revista de bordo e o celular, logicamente, fica no modo “avião”, ou seja, no céu realmente não se navega, nem na web. Então, só me restou dar uma apreciada no clássico folheto de instruções de vôo. Algo ali me chamou a atenção: em caso de despressurização, máscaras caem imediatamente do teto para podermos respirar, mas adultos devem usar o equipamento antes de aplicá-lo nas crianças. Sinceramente, não sei se eu teria o equilíbrio emocional e conseguiria calar meus instintos paternos numa situação assim, o que me faria automaticamente colocar as máscaras em meus filhos para depois usar em mim mesmo. Mas a justificativa de um adulto salvaguardar antes sua vida está no fato de que, se ele desmaiar, certamente não conseguirá proteger seus filhos. A interpretação inicial e lógica é a de que precisamos, primeiramente, nos cuidar para depois cuidar de quem precisa de nosso apoio. Mas esse mesmo raciocínio tem sido interpretado de forma equivocada fora dos aviões: temos muita gente querendo saber do seu, e dane-se quem mais estiver na turbulência, “a máscara é minha, vire-se!”.

A regra universal para o bom convívio social é simples: o maior protege o menor (conforme sugere o folheto de bordo). Só que vemos pessoas e nações deturpando este conceito e aplicando a lei da selva: o maior devora o menor.

No ultimo dia de palestras do International Law Enforcement IP Crime Conference, ouvi congressistas tratando o combate ao ilícito como caso de polícia, e não há a menor dúvida de que realmente o é. Porém, conforme tenho feito nas últimas postagens, estou preocupado em complementar o raciocínio deste seleto time de pensadores com uma abordagem no estilo “o outro lado da moeda”. Nesse caso, principalmente porque sustento a crença de que a intervenção da força é gerada quando outros recursos falharam, o que é uma vergonha em se tratando de um mundo moderno e com milhares de anos de história para se inspirar e tomar lições.

O “salve-se quem puder” pelo qual passa a população de diversos países tem gerado um efeito manada não só nas ondas migratórias, mas também na percepção refratária que as classes mais privilegiadas vêm encampando com relação a quem vem de fora, gerando uma xenofobia epidêmica e cega (embora este adjetivo, no caso, seja praticamente um pleonasmo). Ao invés de apoio e conforto, destinam ira, intolerância e agressividade a quem perdeu praticamente tudo na vida, exceto a esperança.

A inclusão acolhedora começa pela escola, lugar onde podemos exercitar e praticar uma pauta humana e permeada de amparo construtivo a quem precisa. Alunos com dificuldade de aprendizado, síndromes, problemas motores e outras necessidades especiais precisam de um apoio seguro, com aulas de reforço, orientações em dietas, medicação correta e acompanhamento de profissionais multidisciplinar. É desse modo que formamos cidadãos que não serão segregacionistas, nem terão seus olhos voltados ao próprio umbigo. A educação existe para gerar transformação, é a base, com ela o maior aprende a proteger o menor. Com a prática da empatia vamos formar uma geração cujos filhos ficarão perplexos ao constatar nos livros de história que, na época atual, houve quem levantasse o egoísmo como bandeira social. E que o preconceito aos estrangeiros foi praticado em países formados por imigrantes. É nisso que precisamos acreditar, na rebeldia contra essa onda turva e incoerente. É o que dá sentido ao nosso trabalho. Afinal, quem preza pelo egoísmo consegue mudar a própria vida, mas quem o despreza consegue mudar o mundo.

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José Elias Castro Gomes - Mantenedor do COC Foz do Iguaçu