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Extra! Extra! As boas notícias sumiram!

Extra! Extra! As boas notícias sumiram!
- Foto: Divulgação

* José Elias Castro Gomes


Má notícia para as boas notícias. Elas estão morrendo. E não por estarem deixando de existir, elas estão por toda parte. Mas é que há muito deixaram de atrair a audiência, que é quem as faz ser divulgadas. O apreço pela tragédia e pelo chocante parece magnetizar a atenção dos leitores de jornais e da audiência da TV. Mas será que é o público que exige este tipo de conteúdo da imprensa ou foi ela que o alimentou por tanto tempo com essa dieta que agora o viciou no cardápio? E será que nosso mundo se tornou de fato uma gigantesca Gotham City ou existe um complô ou modus operandi das grandes redes de comunicação em nos deixar sem o oxigênio de notícias que nos deem um mínimo de alento? Qual o interesse? Qual o ganho para os dois lados?

Sempre que alguém nos diz que tem uma boa e uma má notícia para nos contar, quase que invariavelmente pedimos primeiro para saber da má. Temos um senso de urgência, um gatilho interior que nos faz primeiro necessitar identificar os riscos, para só então prosseguirmos. Isso é atávico, certamente nossos ancestrais preferiam encontrar a pegada de um mamute a sair pela savana desavisadamente e ser pisados pelo paquiderme. Mas a impressão que se tem é a de que, depois de ouvirmos a má notícia, simplesmente esquecemos de que também havia uma boa a ser comunicada. Ficamos tão aterrorizados com a pegada do mamute moldada no solo que deixamos de apreciar a revoada de pássaros sobre nossas cabeças. E esse fenômeno parece ocorrer em escala global.

O escritor e jornalista G. K. Chesterton afirmava: “não é o mundo que piorou, as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito”. De fato, é bem verdade que não havia uma CNN para denunciar as arbitrariedades do império romano, enquanto que, atualmente, uma vizinha que maltrata seu filho pode ir ao ar no final do dia em imagens captadas por um celular. Mas, se os mesmos profissionais de imprensa dos dias de hoje fossem escalados para voltar ao passado e registrar os mandos e desmandos de César, possivelmente voltariam ao presente sem qualquer linha sobre o advento do cristianismo. Isso porque um sermão na montanha dá bem menos Ibope do que o apedrejamento de uma mulher adúltera.

Na verdade, a escalada da mídia em torno do culto à violência acaba regendo o apreço não só por más notícias, mas também por filmes, músicas e entretenimento que a venerem. E isso contamina todo o tecido social, criando uma reação em cadeia: a má notícia vira filme que vira trailer que viraliza na web que vira link compartilhado na rede social e que vai chegar aos nossos filhos. Sem filtro. É uma cumplicidade em grande escala que gera pessimismo e conformismo no atacado. Se as coisas estão todas tão ruins, por que eu deveria me insubordinar? E parece que, não saciada com a colossal onda de más notícias, muita gente ainda se empenha em criar factoides. Tanto que Facebook e Google estão se mobilizando para criar sistemas inteligentes que identifiquem e eliminem notícias falsas. Onde vamos parar?

Precisamos saber enxergar as boas notícias. Elas estão presentes nas boas ações das empresas responsáveis, nas atitudes anônimas de pessoas dedicadas a fazer o bem, nas coisas simples da vida como uma planta que brota em meio ao concreto das grandes cidades, na pureza de um sorriso de criança e na sabedoria de um idoso. Não se trata de alienação, mas sim de proteção da auto-estima e da própria higiene de mente e de alma. Se as boas notícias não vêm até nós, nós iremos até elas. Ou, melhor ainda: nós as criaremos. “Na vida, nem tudo são flores”, alguém dirá a você; concorde, mas lembre também que nem tudo são espinhos.


José Elias Castro Gomes é mantenedor COC Semeador.