H2Foz > Notícias

30/07/2010

O passageiro da poltrona 21, por Sônia Inês Vendrame

* Sônia Inês Vendrame

- Livre! livre!

As palavras sussurradas da poltrona 21 misturavam-se ao ruído do motor do ônibus no instante em que o motorista deixava a rodoviária de Foz do Iguaçu.  O dono da voz, fez da manobra, uma espécie de marco zero para outro começo. Pelo tom, parecia feliz. Emendou o dizer solitário com duas batidinhas com o envelope no encosto da poltrona 19, materializando o primeiro brinde: tec! tec!

Ele abre a cortina enquanto o veículo serpenteia o boxe, o prédio, faz a curva para a esquerda, dobra novamente à esquerda, pega a direita por duzentos metros. É o cruzamento da Costa e Silva. É o corredor para a saída da cidade, acesso para a BR-277. Os demais passageiros terminam de arrumar sacolas, bancos, encostos...É o início de uma viagem de 18 horas e os primeiros minutos de liberdade de um jovem.

O ruído do papel sendo desdobrado permite deduzir que são inúmeras paginas. O ler da voz jovem, lendo para ele, deixa a certeza da falta da escola na vida dele. É uma leitura de juntar letras, quase de adivinhação. O esforço do desvendar o escrito revela a hora da soltura: onze horas, trinta e oito minutos e vinte e oito segundos. Ele estava “livre” havia três horas.  A espécie de bíblia do dizer da justiça foi fechada abruptamente, provocada pelas vozes no interior do ônibus.

- Todo mundo sentado que vem o primeiro posto da Policia Federal, mas hoje parece tudo calmo por aqui. Ninguém vacila, todos no lugar.

O aviso é do líder do grupo, uma mulher de cerca de 40 anos, blusa estampada. A manga do braço direito caída deixando ver todo o ombro e a alça da langerry vermelha. A calça preta colada ao corpo revela dobras. Nos pés sandálias prateadas. Durante o embarque ela fazia o levantamento do volume e do número de malas de cada passageiro.

- É para saber do valor da caixinha depois do embarque em Cascavel. – avisava.

O ônibus reduz, quase se arrasta pelos pontos demarcados como “área duplamente federal”. Dos passageiros nenhum ruído, nada. Todos parecem dormir. A poltrona 21 se faz invisível.

Retomada a segurança de que os “homi” não parariam o interior vira festa. É hora de relaxar, fazer contas e torcer para que o Posto da Receita Federal, distante 50 quilômetros, esteja fechado. Apesar do nome: Bom Jesus, o local é o mais temido de quem faz das compras no Paraguai combustível para abastecer bancas e lojas de todo o Brasil.

Mais de uma hora de viagem e a notícia: - o posto está fechado. Nova festa. Os habitues imprimem outro fazer, recorrem aos celulares. Todos ligam para os contatos com o seguinte dizer em forma de código: “Ta limpo? Não tem andorinha ?”. Neste ritmo o ônibus deixa a BR-277 para a primeira parada: Medianeira.

Mais sacolas, novas malas, mais mulheres. Mesmo avisados da impossibilidade de desembarcar o passageiro da 21 se mexe, levanta mas não deixa o lugar, cala.  Reabre o envelope, retoma a leitura sibilar. Entre os passageiros novos avisos são disparados: “Medianeira tá limpo. Sem andorinha”.

Na guarita da rodoviária de Cascavel, distante 140 quilômetros da fronteira o motorista informa: 18 passageiros. O ônibus mal estaciona e quase todos descem para encontrar os “colegas de compras”. No ritual da muamba há quem prefira levar as mercadorias até Cascavel de carro, estratégia mais discreta. Na 21 o ruído é de quem também tem pressa. Ele desce, desaparece entre as cabeças da plataforma e ressurge na frente de um balcão de uma lanchonete.

Pelo vidro da janela do ônibus é possível dar forma a voz. Ele aparenta ter uns 22 anos, um metro e oitenta. O moletom cinza com faixa azul nas laterais, o tênis e o boné enterrado na testa veste o rapaz esguio, muito magro. No entorno do boné pequenos fios de cabelos mostram que o corte foi com máquina zero, estilo xadrez.

O atendente serve uma lata de cerveja e um pacote de salgadinhos. A voracidade com que ele avança sobre a bebida e o alimento revela mais que fome e sede. Parece que ele inicia o ritual de perdão com o mundo. Frenético ele enche a mão com punhados daquelas bolinhas e as leva a boca. Os goles fazem que a lata amasse. É uma sucção quase indecente.

Ele limpa a boca com as costas das mãos, vigia com o olhar, não o que tem nas mãos, mas o distante, o novamente novo do mundo. Os olhos correm do balcão para o ônibus, para o saguão. Param nos seguranças da rodoviária. Parecem congelar nas duas figuras vestidas de azul. Quebrado o êxtase novamente sobre o balcão mais um pacote de salgadinho e nova lata de bebida. Do bolso direito ele retira notas, paga, pega e se dirige para o ônibus.

Retorna como saiu: leve e veloz. O ruído do mastigar, do beber parece nostálgico agora. Quando ele coloca o alimento, a mordida parece brincar com o gosto, a bebida com a garganta não mais vigiada. Ele amassa a lata e repete:

- Livre! livre! - São 18 horas. O ônibus segue em direção da noite, a líder já recolheu a “caixinha para o motorista”. Cerca de 70 reais que ela conta e avisa:

- Eu marquei o banco de quem não pagou. Se os “homi” para, esses que não colaboraram que vão para o sacrifício.

Ela segue para a cabine. Retorna e o filme começa. Um DVD emprestado de um passageiro que havia comprado em uma banquinha por dois reais. Encerrada a sessão, inicia a busca pelas poltronas vazias até a próxima parada em Maringá por volta das 22h.

- E ai seu João conheceu o filho há três anos!

- Que é “muleque”!?

A troca de palavras ditas na escuridão de um ônibus em movimento parece sair de um pedaço do filme que havia acabado há pouco. Não são.

- Quem diria. Vai me levar de volta. Tu que eu só soube de ti quando cai. –diz o rapaz para o homem que senta-se ao lado dele, após mais de quatro horas do início da viagem.

- Certo!  Tu tem a papelada ai? As coisas que o juiz te disse? Tu ta esperto?

- O juiz disse que para eu ficar fora da cadeia tenho de arranjar um trabalho logo. Todo mês tenho de mandar para ele o meu endereço da casa e da empresa que trabalho.

- Certo!

 Não é possível assegurar onde seu João havia embaraçado, mas a conversa entre os dois – no sentido mais amplo do conhecer-se – costura informações, ergue barreiras, afasta e acrescenta dúvidas entre desconhecidos.

- Quando a mãe te procurou dizendo que tu era meu pai e eu já tava preso. Que foi que tu pensou?

- Pensei nada não.

A resposta deixa um vazio longo que só volta a ser preenchido quando o jovem aponta para a estrada.

- Foi aqui, bem aqui que me pegaram. Olha o posto! olha o posto! Tou arrepiado.

Ele pára de falar, o ônibus reduz, freia, desliza novamente. Na pista três policias olham para o veículo, mas não fazem nenhum sinal para parar. O ônibus segue, passa por eles, quando a voz se faz ouvir novamente.

- Ta vendo aquela saída ali do lado do Posto. Ali que eu saí fugido. Me pegaram lá na frente já todo quebrado.

O posto da polícia era o de Laranjeiras do Sul. A narrativa é apressada, como quem quer passar logo pela memória tudo o que aconteceu, o 21, conta que há três anos, ele e mais dois amigos embarcaram em um carro em São Paulo para pegar uma encomenda no Paraguai: seis quilos de cocaína. Receberiam mil reais no momento da entrega.

- Quando a gente chegou aqui eu fiquei nervoso e deixei o carro apagar. Quando conseguir ligar eu arranquei, derrubei o policial na pista. Os outros federais seguiram a gente, perdi o controle e bati. Quando acordei eu tava ali, ali todo quebrado.

Ele aponta para uma unidade de saúde de Laranjeiras do Sul. Espera ônibus avançar e segue:

- Vim neste hospital onde fiquei três dias. Espera! Vê ali a ruinha, essa ruinha dá lá na delegacia. Lá os caras me enquadraram.

- E os outros moleques?

- Eles ficaram seis meses porque quem estava dirigindo era eu. Fiquei com a maior condena.

Do mesmo jeito que sentou-se ao lado do filho, o homem levanta, se afasta. Senta-se em outro banco.

- Falo véio!

Na rodoviária há pouco movimento. Nenhum passageiro. Do ônibus descem dois para a parada rápida, entre eles o 21. Retorna com novo pacote de salgado e mais uma cerveja. Todas as luzes são desligadas, menos a da 21 que recebe nova visita.

- Teu pai falou que tu ficou preso três anos por tráfico?

- Foi. Ele diz que é meu pai, mas não conheço ele. Só vi ele quando chegou com a minha mãe quando eu já tava preso na cadeia de Foz do Iguaçu. Minha mãe chorava e dizia: esse é teu pai.

A ausência de emoção na narrativa parece incentivar o “novo colega de banco”.

- Quando tempo você ficou na cadeia?

- Fiquei um ano na Cadeia Publica e após a condena foi para a amarela. – O termo foi emprestado da cor da roupa usada pelos presos do Presídio de Segurança Máxima de Foz do Iguaçu: amarelo. A penitenciária é uma das mais modernas do país, contrasta com o “Cadeião de Três Lagoas”, o mais inseguro e superlotado do Paraná.

- Como foi?

- Primeiro eu fiquei no cadeião. Lá era sinistro. Quando fui para a “amarela” sosseguei, mas tudo era na linha, nada fora do esquema. Fui para o canteiro de costura.

Passava o dia costurando. Lá era como uma fábrica, mas dessas pequenas, mas com rigor. Cara! era muito calor, sauna mesmo. A coisa boa era o salário e a redução de pena.

- E como era namorar? – A pergunta parece não incomodar, e nem a falta de resposta.

- Normal, mas isso é coisa que fica lá dentro. Como a minha namorada desistiu assim que soube, fique só.

- Soube que rola de tudo nesses lugares?

- Sei de nada não.

O diálogo é interrompido com a chegada em Maringá. Todos desembarcam em busca de alimentos e toalete para quem recusa o disponível no ônibus. O rapaz desce.

Estica-se enquanto os olhos percorrem o cenário. Parece indeciso entre o restaurante e o balcão de lanches.

- Uma cerveja, uma batata frita e dois chocolates. – Senta-se à mesinha do canto. Olha para além do movimento. Tira do bolso um papelzinho. Lê e guarda. Os dedos são finos, pinçam as batatinhas colocadas a boca como hóstias. Degustadas com a mesma fé de quem comunga. Ele parece encantado com a embalagem. As cervejas sempre da mesma marca. O boné faz sombra aos olhos, impedem definir a cor. Mesmo livre, mantém o corpo preso entre os ombros, é um modo aprendido no cárcere de aparecer o menos possível. Ele está só. O pai parece animado no restaurante.

Retomada a viagem, a madrugada acalma, a primeira fora da cela. No banco sozinho ele parece imóvel, encostado com as costas para a janela, o olhar mesmo fechado está fixo para frente. Com os braços cruzados sobre o peito e as pernas em posição de ataque ele parece pronto para reagir. Ele contrasta com quem se espalha pelas poltronas, ganha o assoalho do ônibus, ou simplesmente passa a noite vigiando a estrada.

Por volta das cinco horas da manha, já em Assis São Paulo, parada para o café. O 21 desce, caminha pelo estacionamento. Desaparece entre os ônibus, reaparece na lanchonete com um pastel e um refrigerante. Novo degustar, novo apreciar o paladar. Há um pacto invisível sendo rompido, o amanhecer fora das grades. Tão estranho como os demais ele parece estranhar-se a si mesmo. Olha para as mãos já sem o alimento. Verifica os ombros, as pernas como se estivesse sendo revistado antes de entrar para o cárcere.

Caminha, para e olha. A sensação é de que irá saltar e correr e ele o faz. Para ao ouvir.

- O ônibus vai partir “muleque”.

Retorna e ganha a companhia do pai.

- Vou descer no viaduto da Castelo antes de entrar em São Paulo. Deixei o caminhão lá. Vou direto para a minha casa em Santos.

- Sei.

- E você?

- Para a casa da mãe. Ela ta esperando disse que vai reunir os amigo e fazer churrasco com cerveja.

É o último diálogo dos dois nas próximas duas horas. Há um silencio de todos enquanto o ônibus avança rumo a Osasco, mas antes pára no viaduto para a descida do passageiro que olha para trás e só levanta a mão, num adeus sem palavras.

Uma hora mais tarde em Osasco parte do grupo desce. Carregadores esperam para o transporte das malas imensas. A mulher da blusa estampada e sutiã vermelho desce arrastando os tamancos.

O passageiro da 21 está com o rosto grudado no vidro. A respiração forma pequenas marcas no material frio. As mãos estão a poucos centímetros do rosto, também coladas na janela. Ali ele permanece até o terminal da Barra Funda. Na guarita o motorista anuncia: dez passageiros. Quatro ficam aqui e o resto vai para o Rio de Janeiro. Quando o ônibus para um ruído faz-se ouvir: frech! frech!, em poucos segundo o aroma de limão revela o ato. Ele havia passado desodorante, numa espécie de banho de cela.

Ele levanta, arruma o boné como pode, olha-se até os pés e dirige-se a porta do ônibus, desce, segue para a escada rolante. Ele não tem bagagem, carrega nas mãos um envelope pardo. Deixa-se levar pela escada e quando está quase no topo ele abre os braços e grita:

- Sampa!!!! aqui vou eu! – desaparece entre a multidão do segundo maior terminal rodoviário do Brasil.

* Sônia Inês Vendrame é jornalista e professora, doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUCSP. Mestre em Comunicação e práticas de Consumo pela ESPMSP. A matéria é o resultado das anotações feitas durante uma das mais de 80 viagens de Foz do Iguaçu para São Paulo para estudar. soniavendrame8@hotmail.com

1  O “Andorinha” é a referência a presença de Policiais Rodoviários Federais. A cor do uniforme dos servidores é semelhante à plumagem das aves tão comuns na região.

 
Comentários
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. O Portal H2FOZ não é responsável pelo seu conteúdo.
Nome: 
Montezuma Cruz
Email: 
montezumacruz@gmail.com
Cidade: 
Guará I (DF)

Um dos relatos mais diretos, substanciosos e realistas que já vi, mostrando os ônibus bate-volta e a sacolagem como ela é. Parabéns, Sônia. E prossiga com a inspiração e a versatilidade de sempre. Fraterno abraço.
Monte

Post new Comentário

  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Tags HTML permitidas: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.

Mais informações sobre as opções de formatação

CAPTCHA
Esta questão serve para filtrar os envios automatizados de spam deste formulário.
Image CAPTCHA
Digite os caracteres que aparecem na imagem.