* Sônia Inês Vendrame
- Livre! livre!
As palavras sussurradas da poltrona 21 misturavam-se ao ruído do motor do ônibus no instante em que o motorista deixava a rodoviária de Foz do Iguaçu. O dono da voz, fez da manobra, uma espécie de marco zero para outro começo. Pelo tom, parecia feliz. Emendou o dizer solitário com duas batidinhas com o envelope no encosto da poltrona 19, materializando o primeiro brinde: tec! tec!
Ele abre a cortina enquanto o veículo serpenteia o boxe, o prédio, faz a curva para a esquerda, dobra novamente à esquerda, pega a direita por duzentos metros. É o cruzamento da Costa e Silva. É o corredor para a saída da cidade, acesso para a BR-277. Os demais passageiros terminam de arrumar sacolas, bancos, encostos...É o início de uma viagem de 18 horas e os primeiros minutos de liberdade de um jovem.
O ruído do papel sendo desdobrado permite deduzir que são inúmeras paginas. O ler da voz jovem, lendo para ele, deixa a certeza da falta da escola na vida dele. É uma leitura de juntar letras, quase de adivinhação. O esforço do desvendar o escrito revela a hora da soltura: onze horas, trinta e oito minutos e vinte e oito segundos. Ele estava “livre” havia três horas. A espécie de bíblia do dizer da justiça foi fechada abruptamente, provocada pelas vozes no interior do ônibus.
- Todo mundo sentado que vem o primeiro posto da Policia Federal, mas hoje parece tudo calmo por aqui. Ninguém vacila, todos no lugar.
O aviso é do líder do grupo, uma mulher de cerca de 40 anos, blusa estampada. A manga do braço direito caída deixando ver todo o ombro e a alça da langerry vermelha. A calça preta colada ao corpo revela dobras. Nos pés sandálias prateadas. Durante o embarque ela fazia o levantamento do volume e do número de malas de cada passageiro.
- É para saber do valor da caixinha depois do embarque em Cascavel. – avisava.
O ônibus reduz, quase se arrasta pelos pontos demarcados como “área duplamente federal”. Dos passageiros nenhum ruído, nada. Todos parecem dormir. A poltrona 21 se faz invisível.
Retomada a segurança de que os “homi” não parariam o interior vira festa. É hora de relaxar, fazer contas e torcer para que o Posto da Receita Federal, distante 50 quilômetros, esteja fechado. Apesar do nome: Bom Jesus, o local é o mais temido de quem faz das compras no Paraguai combustível para abastecer bancas e lojas de todo o Brasil.
Mais de uma hora de viagem e a notícia: - o posto está fechado. Nova festa. Os habitues imprimem outro fazer, recorrem aos celulares. Todos ligam para os contatos com o seguinte dizer em forma de código: “Ta limpo? Não tem andorinha ?”. Neste ritmo o ônibus deixa a BR-277 para a primeira parada: Medianeira.
Mais sacolas, novas malas, mais mulheres. Mesmo avisados da impossibilidade de desembarcar o passageiro da 21 se mexe, levanta mas não deixa o lugar, cala. Reabre o envelope, retoma a leitura sibilar. Entre os passageiros novos avisos são disparados: “Medianeira tá limpo. Sem andorinha”.
Na guarita da rodoviária de Cascavel, distante 140 quilômetros da fronteira o motorista informa: 18 passageiros. O ônibus mal estaciona e quase todos descem para encontrar os “colegas de compras”. No ritual da muamba há quem prefira levar as mercadorias até Cascavel de carro, estratégia mais discreta. Na 21 o ruído é de quem também tem pressa. Ele desce, desaparece entre as cabeças da plataforma e ressurge na frente de um balcão de uma lanchonete.
Pelo vidro da janela do ônibus é possível dar forma a voz. Ele aparenta ter uns 22 anos, um metro e oitenta. O moletom cinza com faixa azul nas laterais, o tênis e o boné enterrado na testa veste o rapaz esguio, muito magro. No entorno do boné pequenos fios de cabelos mostram que o corte foi com máquina zero, estilo xadrez.
O atendente serve uma lata de cerveja e um pacote de salgadinhos. A voracidade com que ele avança sobre a bebida e o alimento revela mais que fome e sede. Parece que ele inicia o ritual de perdão com o mundo. Frenético ele enche a mão com punhados daquelas bolinhas e as leva a boca. Os goles fazem que a lata amasse. É uma sucção quase indecente.
Ele limpa a boca com as costas das mãos, vigia com o olhar, não o que tem nas mãos, mas o distante, o novamente novo do mundo. Os olhos correm do balcão para o ônibus, para o saguão. Param nos seguranças da rodoviária. Parecem congelar nas duas figuras vestidas de azul. Quebrado o êxtase novamente sobre o balcão mais um pacote de salgadinho e nova lata de bebida. Do bolso direito ele retira notas, paga, pega e se dirige para o ônibus.
Retorna como saiu: leve e veloz. O ruído do mastigar, do beber parece nostálgico agora. Quando ele coloca o alimento, a mordida parece brincar com o gosto, a bebida com a garganta não mais vigiada. Ele amassa a lata e repete:
- Livre! livre! - São 18 horas. O ônibus segue em direção da noite, a líder já recolheu a “caixinha para o motorista”. Cerca de 70 reais que ela conta e avisa:
- Eu marquei o banco de quem não pagou. Se os “homi” para, esses que não colaboraram que vão para o sacrifício.
Ela segue para a cabine. Retorna e o filme começa. Um DVD emprestado de um passageiro que havia comprado em uma banquinha por dois reais. Encerrada a sessão, inicia a busca pelas poltronas vazias até a próxima parada em Maringá por volta das 22h.
- E ai seu João conheceu o filho há três anos!
- Que é “muleque”!?
A troca de palavras ditas na escuridão de um ônibus em movimento parece sair de um pedaço do filme que havia acabado há pouco. Não são.
- Quem diria. Vai me levar de volta. Tu que eu só soube de ti quando cai. –diz o rapaz para o homem que senta-se ao lado dele, após mais de quatro horas do início da viagem.
- Certo! Tu tem a papelada ai? As coisas que o juiz te disse? Tu ta esperto?
- O juiz disse que para eu ficar fora da cadeia tenho de arranjar um trabalho logo. Todo mês tenho de mandar para ele o meu endereço da casa e da empresa que trabalho.
- Certo!
Não é possível assegurar onde seu João havia embaraçado, mas a conversa entre os dois – no sentido mais amplo do conhecer-se – costura informações, ergue barreiras, afasta e acrescenta dúvidas entre desconhecidos.
- Quando a mãe te procurou dizendo que tu era meu pai e eu já tava preso. Que foi que tu pensou?
- Pensei nada não.
A resposta deixa um vazio longo que só volta a ser preenchido quando o jovem aponta para a estrada.
- Foi aqui, bem aqui que me pegaram. Olha o posto! olha o posto! Tou arrepiado.
Ele pára de falar, o ônibus reduz, freia, desliza novamente. Na pista três policias olham para o veículo, mas não fazem nenhum sinal para parar. O ônibus segue, passa por eles, quando a voz se faz ouvir novamente.
- Ta vendo aquela saída ali do lado do Posto. Ali que eu saí fugido. Me pegaram lá na frente já todo quebrado.
O posto da polícia era o de Laranjeiras do Sul. A narrativa é apressada, como quem quer passar logo pela memória tudo o que aconteceu, o 21, conta que há três anos, ele e mais dois amigos embarcaram em um carro em São Paulo para pegar uma encomenda no Paraguai: seis quilos de cocaína. Receberiam mil reais no momento da entrega.
- Quando a gente chegou aqui eu fiquei nervoso e deixei o carro apagar. Quando conseguir ligar eu arranquei, derrubei o policial na pista. Os outros federais seguiram a gente, perdi o controle e bati. Quando acordei eu tava ali, ali todo quebrado.
Ele aponta para uma unidade de saúde de Laranjeiras do Sul. Espera ônibus avançar e segue:
- Vim neste hospital onde fiquei três dias. Espera! Vê ali a ruinha, essa ruinha dá lá na delegacia. Lá os caras me enquadraram.
- E os outros moleques?
- Eles ficaram seis meses porque quem estava dirigindo era eu. Fiquei com a maior condena.
Do mesmo jeito que sentou-se ao lado do filho, o homem levanta, se afasta. Senta-se em outro banco.
- Falo véio!
Na rodoviária há pouco movimento. Nenhum passageiro. Do ônibus descem dois para a parada rápida, entre eles o 21. Retorna com novo pacote de salgado e mais uma cerveja. Todas as luzes são desligadas, menos a da 21 que recebe nova visita.
- Teu pai falou que tu ficou preso três anos por tráfico?
- Foi. Ele diz que é meu pai, mas não conheço ele. Só vi ele quando chegou com a minha mãe quando eu já tava preso na cadeia de Foz do Iguaçu. Minha mãe chorava e dizia: esse é teu pai.
A ausência de emoção na narrativa parece incentivar o “novo colega de banco”.
- Quando tempo você ficou na cadeia?
- Fiquei um ano na Cadeia Publica e após a condena foi para a amarela. – O termo foi emprestado da cor da roupa usada pelos presos do Presídio de Segurança Máxima de Foz do Iguaçu: amarelo. A penitenciária é uma das mais modernas do país, contrasta com o “Cadeião de Três Lagoas”, o mais inseguro e superlotado do Paraná.
- Como foi?
- Primeiro eu fiquei no cadeião. Lá era sinistro. Quando fui para a “amarela” sosseguei, mas tudo era na linha, nada fora do esquema. Fui para o canteiro de costura.
Passava o dia costurando. Lá era como uma fábrica, mas dessas pequenas, mas com rigor. Cara! era muito calor, sauna mesmo. A coisa boa era o salário e a redução de pena.
- E como era namorar? – A pergunta parece não incomodar, e nem a falta de resposta.
- Normal, mas isso é coisa que fica lá dentro. Como a minha namorada desistiu assim que soube, fique só.
- Soube que rola de tudo nesses lugares?
- Sei de nada não.
O diálogo é interrompido com a chegada em Maringá. Todos desembarcam em busca de alimentos e toalete para quem recusa o disponível no ônibus. O rapaz desce.
Estica-se enquanto os olhos percorrem o cenário. Parece indeciso entre o restaurante e o balcão de lanches.
- Uma cerveja, uma batata frita e dois chocolates. – Senta-se à mesinha do canto. Olha para além do movimento. Tira do bolso um papelzinho. Lê e guarda. Os dedos são finos, pinçam as batatinhas colocadas a boca como hóstias. Degustadas com a mesma fé de quem comunga. Ele parece encantado com a embalagem. As cervejas sempre da mesma marca. O boné faz sombra aos olhos, impedem definir a cor. Mesmo livre, mantém o corpo preso entre os ombros, é um modo aprendido no cárcere de aparecer o menos possível. Ele está só. O pai parece animado no restaurante.
Retomada a viagem, a madrugada acalma, a primeira fora da cela. No banco sozinho ele parece imóvel, encostado com as costas para a janela, o olhar mesmo fechado está fixo para frente. Com os braços cruzados sobre o peito e as pernas em posição de ataque ele parece pronto para reagir. Ele contrasta com quem se espalha pelas poltronas, ganha o assoalho do ônibus, ou simplesmente passa a noite vigiando a estrada.
Por volta das cinco horas da manha, já em Assis São Paulo, parada para o café. O 21 desce, caminha pelo estacionamento. Desaparece entre os ônibus, reaparece na lanchonete com um pastel e um refrigerante. Novo degustar, novo apreciar o paladar. Há um pacto invisível sendo rompido, o amanhecer fora das grades. Tão estranho como os demais ele parece estranhar-se a si mesmo. Olha para as mãos já sem o alimento. Verifica os ombros, as pernas como se estivesse sendo revistado antes de entrar para o cárcere.
Caminha, para e olha. A sensação é de que irá saltar e correr e ele o faz. Para ao ouvir.
- O ônibus vai partir “muleque”.
Retorna e ganha a companhia do pai.
- Vou descer no viaduto da Castelo antes de entrar em São Paulo. Deixei o caminhão lá. Vou direto para a minha casa em Santos.
- Sei.
- E você?
- Para a casa da mãe. Ela ta esperando disse que vai reunir os amigo e fazer churrasco com cerveja.
É o último diálogo dos dois nas próximas duas horas. Há um silencio de todos enquanto o ônibus avança rumo a Osasco, mas antes pára no viaduto para a descida do passageiro que olha para trás e só levanta a mão, num adeus sem palavras.
Uma hora mais tarde em Osasco parte do grupo desce. Carregadores esperam para o transporte das malas imensas. A mulher da blusa estampada e sutiã vermelho desce arrastando os tamancos.
O passageiro da 21 está com o rosto grudado no vidro. A respiração forma pequenas marcas no material frio. As mãos estão a poucos centímetros do rosto, também coladas na janela. Ali ele permanece até o terminal da Barra Funda. Na guarita o motorista anuncia: dez passageiros. Quatro ficam aqui e o resto vai para o Rio de Janeiro. Quando o ônibus para um ruído faz-se ouvir: frech! frech!, em poucos segundo o aroma de limão revela o ato. Ele havia passado desodorante, numa espécie de banho de cela.
Ele levanta, arruma o boné como pode, olha-se até os pés e dirige-se a porta do ônibus, desce, segue para a escada rolante. Ele não tem bagagem, carrega nas mãos um envelope pardo. Deixa-se levar pela escada e quando está quase no topo ele abre os braços e grita:
- Sampa!!!! aqui vou eu! – desaparece entre a multidão do segundo maior terminal rodoviário do Brasil.
* Sônia Inês Vendrame é jornalista e professora, doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUCSP. Mestre em Comunicação e práticas de Consumo pela ESPMSP. A matéria é o resultado das anotações feitas durante uma das mais de 80 viagens de Foz do Iguaçu para São Paulo para estudar. soniavendrame8@hotmail.com
1 O “Andorinha” é a referência a presença de Policiais Rodoviários Federais. A cor do uniforme dos servidores é semelhante à plumagem das aves tão comuns na região.
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Um dos relatos mais diretos, substanciosos e realistas que já vi, mostrando os ônibus bate-volta e a sacolagem como ela é. Parabéns, Sônia. E prossiga com a inspiração e a versatilidade de sempre. Fraterno abraço.
Monte
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