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Missões jesuíticas

Uma viagem cultural ao início da colonização

Não são somente as belezas das Cataratas do Iguaçu, a tecnologia e o impacto da hidrelétrica de Itaipu, as compras no Paraguai e os passeios na Argentina que marcam o turismo na região da Tríplice Fronteira. A poucos quilômetros do centro de Foz do Iguaçu, há uma outra grande aventura aos interessados numa viagem cultural e histórica sobre a América do Sul dos séculos XVI e XVII: as Missões Jesuíticas.

As reduções, como ficaram conhecidas, ocuparam por 200 anos áreas dos atuais estados do Paraná e Rio Grande do Sul, e ainda do Paraguai, Argentina e Uruguai. Das 30 reduções identificadas nessa grande área, sete estão localizadas no Leste do Paraguai e 14 no norte da Argentina, bem próximas à fronteira brasileira com Foz do Iguaçu, num raio de aproximadamente 300 quilômetros.

Há três roteiros alternativos para conhecê-las e percorrer parte de quatro séculos de história, cultura, arte e organização social do povo guarani. Partindo de Foz do Iguaçu, o turista pode conhecer primeiro as sete missões paraguaias, cruzar a fronteira entre Encarnación (Paraguai) e Posadas (Argentina) e visitar as 14 missões no território argentino.

O mesmo roteiro pode ser feito a partir da Argentina. Nos dois casos, a viagem é de um dia inteiro. Os outros dois roteiros elaborados por agências locais partem de Foz do Iguaçu até as ruínas argentinas ou até as paraguaias. As visitas levam, em média, cerca de 14 horas, pelo menos.

História

Conhecer as ruínas, igrejas, vivendas, praças, armazéns e escolas é resgatar parte do modo de vida de nossos antepassados, que levaram para as selvas do Cone Sul, sob o rígido comando dos jesuítas, o esplendor da arte européia e um desenvolvimento urbano que muitas cidades ainda hoje desconhecem.

As reduções eram verdadeiras cidades instaladas nas selvas, entre os séculos XVII e XVIII, com uma excelente infra-estrutura. Além da igreja, que era o centro da comunidade, havia hospital, asilo, escolas, casa, produção de alimentos, oficinas e pequenas indústrias. Fabricavam-se instrumentos musicais e imprimiam-se livros, alguns em alemão.

Os jesuítas possuíam observatório astronômico e até editavam uma carta astronômica e um boletim meteorológico. Foi nas reduções que iniciou a industrialização do ferro, a produção de tecidos e a criação de gado no continente.

Ocuparam as reduções os índios guaranis, sob a pregação evangelizadora dos padres jesuítas, decididos a criar uma série de repúblicas teocráticas no continente.

As reduções tinham de cinco mil a dez mil índios. Só na região entre o Paraguai e Argentina, estima-se que mais de 100 mil guaranis foram reduzidos às missões. No final do século XVIII, depois de grandes conflitos, com milhares de mortos, especialmente de índios, Portugal e Espanha dariam o golpe definitivo contra as reduções, expulsando os jesuítas e deixando os guaranis sem qualquer coordenação. Seguiram-se administradores militares e os índios acabaram sendo transformados em escravos ou soldados, nos diversos episódios militares ocorridos no Prata, sendo exterminados completamente nos 60 a 70 anos que se seguiram à expulsão dos jesuítas. 

Cinema retratou a temática "missioneira" 

Para se conhecer mais sobre a saga dos guaranis e dos padres jesuítas na instalação das missões em territórios do Mercosul há quatro filmes que abordam a temática.

O mais conhecido deles é “A Missão”, filme de Rolland Joffé, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1986 (melhor filme), que conta a saga dos jesuítas na fronteira entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai. As Cataratas do Iguaçu formam o cenário principal.

O filme tem no elenco Robert De Niro, Jeremy Irons, Aidan Quinn e Liam Neeson. Sua produção e direção são esmeradas, os figurinos reproduzem fidedignamente o período, uma belíssima fotografia e um roteiro qualificado produzido por Robert Bolt. O saudoso médico paraguaio, Luiz Rolon, ambientalista e criador do museu Mborore, foi consultor da produção do filme.

A história do filme nos mostra um caçador de índios, capitão Mendonza (Robert De Niro) que por martírio supera seus pecados redimindo-se com uma pena exemplar, trabalhar em favor daqueles que haviam sido suas presas preferenciais, os indígenas. Jeremy Irons interpreta o padre Gabriel que converte os índios tocando uma flauta doce.

"A Missão" discute a disputa que se travava na região pela posse das terras envolvendo Portugal, Espanha e a Igreja Católica (ameaçada de despejo de suas Missões Jesuíticas). Esse acontecimento histórico que se desenrolou por aproximadamente 100 anos e foi discutido em diversos acordos entre portugueses e espanhóis acabou fazendo parte do filme.

República Guarani

Outro filme, mais engajado, é República Guarani, dirigido e produzido por Silvio Back em 1978, com 60 minutos e roteiros e pesquisa assinados por Deonísio da Silva. O documentário foi relançado com 100 minutos em 1982 e ganhou vários prêmios no Brasil. Entre eles, melhor roteiro e melhor trilha sonora no 15º Festival de Brasília/82.

O filme traz um registro necessário da cultura e da história dos guaranis e do que fizeram com eles. São várias entrevistas com especialistas (historiadores e antropólogos) no assunto, como os paraguaios González Dorado e Bartolomeu Meliá, que dão uma versão acurada da colonização espanhola e portuguesa.

Sua montagem meticulosa resultou numa versão sutilmente agressiva e hostil aos jesuítas. Por exemplo, Back esclarece que a figura e a função do cacique entre os guaranis foram impostos pelos padres que afastaram a liderança dos pajés – guias espirituais e curandeiros das tribos.

La República e Y Aún Sueña

A versão jesuítica está no “La República Jesuítica del Paraguay”, dos padres jesuítas norte-americanos Robert McCown e Clement McNaspy. O documentário, de média metragem (60 minutos), foi premiado com a “Águia Dourada” como melhor documentário cultural de 1979 nos EUA, resume com entusiasmo a obra da Companhia de Jesus no Paraguai dos séculos XVII e XVIII.

O menos conhecido é Y Aún Sueña el Guarani, com produção e direção do alemão Wolfgang Penn. O filme retrata a luta do padre Joseph Marx, pároco por 20 anos da Igreja San Ignácio Mini em Misiones, que resgata parte da história das reduções no território argentino. O jesuíta padre Anton Sepp, conhecido também como “gênio das reduções” também é tema do filme que tem mais pretensões religiosas do que culturais e históricas.

O filme liga seu início ao filme A Missão. No filme alemão, nas primeiras cenas, aparece um guarani tocando violino próximo às margens de um rio. No filme de Rolland Joffe, a cena se repete com o padre Gabriel (Jeremy Irons) que toca uma flauta doce.

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Missões jesuíticas
Uma viagem cultural ao início da colonização

Não são somente as belezas das Cataratas do Iguaçu, a tecnologia e o impacto da hidrelétrica de Itaipu, as compras no Paraguai e os passeios na Argentina que marcam o turismo na região da Tríplice Fronteira. A poucos quilômetros do centro de Foz do Iguaçu, há uma outra grande aventura aos interessados numa viagem cultural e histórica sobre a América do Sul dos séculos XVI e XVII: as Missões Jesuíticas.

As reduções, como ficaram conhecidas, ocuparam por 200 anos áreas dos atuais estados do Paraná e Rio Grande do Sul, e ainda do Paraguai, Argentina e Uruguai. Das 30 reduções identificadas nessa grande área, sete estão localizadas no Leste do Paraguai e 14 no norte da Argentina, bem próximas à fronteira brasileira com Foz do Iguaçu, num raio de aproximadamente 300 quilômetros.

Há três roteiros alternativos para conhecê-las e percorrer parte de quatro séculos de história, cultura, arte e organização social do povo guarani. Partindo de Foz do Iguaçu, o turista pode conhecer primeiro as sete missões paraguaias, cruzar a fronteira entre Encarnación (Paraguai) e Posadas (Argentina) e visitar as 14 missões no território argentino.

O mesmo roteiro pode ser feito a partir da Argentina. Nos dois casos, a viagem é de um dia inteiro. Os outros dois roteiros elaborados por agências locais partem de Foz do Iguaçu até as ruínas argentinas ou até as paraguaias. As visitas levam, em média, cerca de 14 horas, pelo menos.

História

Conhecer as ruínas, igrejas, vivendas, praças, armazéns e escolas é resgatar parte do modo de vida de nossos antepassados, que levaram para as selvas do Cone Sul, sob o rígido comando dos jesuítas, o esplendor da arte européia e um desenvolvimento urbano que muitas cidades ainda hoje desconhecem.

As reduções eram verdadeiras cidades instaladas nas selvas, entre os séculos XVII e XVIII, com uma excelente infra-estrutura. Além da igreja, que era o centro da comunidade, havia hospital, asilo, escolas, casa, produção de alimentos, oficinas e pequenas indústrias. Fabricavam-se instrumentos musicais e imprimiam-se livros, alguns em alemão.

Os jesuítas possuíam observatório astronômico e até editavam uma carta astronômica e um boletim meteorológico. Foi nas reduções que iniciou a industrialização do ferro, a produção de tecidos e a criação de gado no continente.

Ocuparam as reduções os índios guaranis, sob a pregação evangelizadora dos padres jesuítas, decididos a criar uma série de repúblicas teocráticas no continente.

As reduções tinham de cinco mil a dez mil índios. Só na região entre o Paraguai e Argentina, estima-se que mais de 100 mil guaranis foram reduzidos às missões. No final do século XVIII, depois de grandes conflitos, com milhares de mortos, especialmente de índios, Portugal e Espanha dariam o golpe definitivo contra as reduções, expulsando os jesuítas e deixando os guaranis sem qualquer coordenação. Seguiram-se administradores militares e os índios acabaram sendo transformados em escravos ou soldados, nos diversos episódios militares ocorridos no Prata, sendo exterminados completamente nos 60 a 70 anos que se seguiram à expulsão dos jesuítas.

Cinema retratou a temática "missioneira"

Para se conhecer mais sobre a saga dos guaranis e dos padres jesuítas na instalação das missões em territórios do Mercosul há quatro filmes que abordam a temática.

O mais conhecido deles é “A Missão”, filme de Rolland Joffé, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1986 (melhor filme), que conta a saga dos jesuítas na fronteira entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai. As Cataratas do Iguaçu formam o cenário principal.

O filme tem no elenco Robert De Niro, Jeremy Irons, Aidan Quinn e Liam Neeson. Sua produção e direção são esmeradas, os figurinos reproduzem fidedignamente o período, uma belíssima fotografia e um roteiro qualificado produzido por Robert Bolt. O saudoso médico paraguaio, Luiz Rolon, ambientalista e criador do museu Mborore, foi consultor da produção do filme.

A história do filme nos mostra um caçador de índios, capitão Mendonza (Robert De Niro) que por martírio supera seus pecados redimindo-se com uma pena exemplar, trabalhar em favor daqueles que haviam sido suas presas preferenciais, os indígenas. Jeremy Irons interpreta o padre Gabriel que converte os índios tocando uma flauta doce.

"A Missão" discute a disputa que se travava na região pela posse das terras envolvendo Portugal, Espanha e a Igreja Católica (ameaçada de despejo de suas Missões Jesuíticas). Esse acontecimento histórico que se desenrolou por aproximadamente 100 anos e foi discutido em diversos acordos entre portugueses e espanhóis acabou fazendo parte do filme.

República Guarani

Outro filme, mais engajado, é República Guarani, dirigido e produzido por Silvio Back em 1978, com 60 minutos e roteiros e pesquisa assinados por Deonísio da Silva. O documentário foi relançado com 100 minutos em 1982 e ganhou vários prêmios no Brasil. Entre eles, melhor roteiro e melhor trilha sonora no 15º Festival de Brasília/82.

O filme traz um registro necessário da cultura e da história dos guaranis e do que fizeram com eles. São várias entrevistas com especialistas (historiadores e antropólogos) no assunto, como os paraguaios González Dorado e Bartolomeu Meliá, que dão uma versão acurada da colonização espanhola e portuguesa.

Sua montagem meticulosa resultou numa versão sutilmente agressiva e hostil aos jesuítas. Por exemplo, Back esclarece que a figura e a função do cacique entre os guaranis foram impostos pelos padres que afastaram a liderança dos pajés – guias espirituais e curandeiros das tribos.

La República e Y Aún Sueña

A versão jesuítica está no “La República Jesuítica del Paraguay”, dos padres jesuítas norte-americanos Robert McCown e Clement McNaspy. O documentário, de média metragem (60 minutos), foi premiado com a “Águia Dourada” como melhor documentário cultural de 1979 nos EUA, resume com entusiasmo a obra da Companhia de Jesus no Paraguai dos séculos XVII e XVIII.

O menos conhecido é Y Aún Sueña el Guarani, com produção e direção do alemão Wolfgang Penn. O filme retrata a luta do padre Joseph Marx, pároco por 20 anos da Igreja San Ignácio Mini em Misiones, que resgata parte da história das reduções no território argentino. O jesuíta padre Anton Sepp, conhecido também como “gênio das reduções” também é tema do filme que tem mais pretensões religiosas do que culturais e históricas.

O filme liga seu início ao filme A Missão. No filme alemão, nas primeiras cenas, aparece um guarani tocando violino próximo às margens de um rio. No filme de Rolland Joffe, a cena se repete com o padre Gabriel (Jeremy Irons) que toca uma flauta doce.

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